Pela primeira vez na vida senti vergonha do meu comportamento. Pois é... difícil de acreditar, mas é verdade.
Às vezes eu me acho a pessoa mais concisa de todas. Outras me acho problemática, duvidosa, incerta... tantos adjetivos negativos que até o mesmo o dicionário seria estéril de tais palavras. Tem certas horas que eu discordo de mim mesma, e justamente nessas horas, que vem estranhas sensações de culpa. Uma impressão familiar de delito escondido, e que a qualquer instantante serei pega. Odeio quando essas "coisas" acontecem comigo...
Hoje fui fazer meu exame de vista. Estava na hora, ou melhor, passou da hora de fazer um novo par de óculos. Pedi para a minha irmã me acompanhar, pois queria uma opinião feminina na escolha da armação dos meus óculos.
Assim que saí do trabalho, fui ao encontro da Broa, minha irmã. Pegamos o famoso 541 - Nova Iguaçú e sentamos juntas. Dentro do ônibus ficamos conversando sobre várias coisas que meu coração não se decidiu ainda. Os minutos voaram, e senti alguém tocando em meu ombro. Quando olhei de relance, era uma mulher. Deveria ter por volta de trinta anos, e segurava um recém-nascido no colo. Ela estava distribuindo panfletos e deu um para Broa e outro para mim. Eu, por mero despeito, nem desdobrei o meu, e vi que minha irmã lia o dela com bastante atenção. Passando alguns segundos, vi a Broa retirando um real do bolso. Eu me espantei e perguntei:
-Você vai doar?
Ela balançou a cabeça de forma positiva com a maior naturalidade e respondeu:
-Quando ela voltar, entregue-a e diga que é seu.
Aquele gesto me causou um tamanho acanhamento. Se ela quis que eu me envergonhasse pela minha falta de sensibilidade, conseguiu.
A mulher voltou então, recolhendo os panfletos junto com o dinheiro de quem havia doado. Passando mais alguns segundos, ouviu-se uma voz feminina, e não era de bom tom. Esta reclamava com o motorista sobre a mulher que pedia dinheiro supostamente para ajudar alimentar seu pequeno bebê. Ela reclamava muito, e justificava pela falta de paz na viagem. O motorista então chamou a pobre mulher, e esta com tal receio se aproximou do motorista pedindo desculpas e dizendo que já ia descer para pegar outro ônibus. O motorista mais uma vez interrompeu a pobre mulher dizendo:
-Eu não estou te expulsando. Quero te dar esses cinco reais. E espero que você compre o leite do seu filho. É menino ou menina?
-É menina! - Disse ela com uma alegria infinita.
-Então vá comprar o leite da sua menina, porque criança é anjinho de Deus.
A pobre mulher pegou os cinco reais e desceu do ônibus com a sua filha no colo.
Todos olharam com repulsa para a senhora que julgou a pobre mulher por pedir dinheiro, inclusive eu. O que eu estava pensando? Há poucos minutos atrás eu era como ela. Olhava com despeito e desdém, só foi a minha irmã caçula e o motorista bem mais velho do que eu fazerem um gesto de caridade para me cair a ficha?
Quem sou eu?
Que tipo de ser humano eu sou?
Se algum conhecido souber disso, irei ouvir e com razão. Eu julguei a pobre senhora, mas não me importei com o pobre bebê. Ela poderia estar usando a criança para apenas pedir dinheiro? Sim, poderia. E se ela realmente fosse uma pobre infeliz tentando sustentar a filha com a maneira que ela de aceitar? Esse tipo de coisa sempre ficará com uma série de interrogações na minha cabeça. Queria não poder ser assim, e ser mais humilde de alma e coração.
That's it!
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